AMORES LÍQUIDOS NA PÓS-MODERNIDADE
Há exatamente um ano comemorava com uma amiga uma decisão sua. Cláudia aceitou se casar depois de dois meses de namoro. Me convidou para ser sua madrinha, o que me daria o privilégio de acompanhar tudo bem de perto, era minha primeira vez dentro de uma igreja. Para a ocasião, escolheu a mais tradicional das cerimônias. Embora alguns parentes e amigos considerassem tudo muito fora de moda, entrar e seguir por um tapete vermelho coberto por rosas, vestida de noiva para ela era indispensável. Sem abrir mão de seu sonho, casou-se como mandava o figurino, esbanjando romantismo.
Duas semanas antes, havia sido testemunha de um outro enlace matrimonial. Rafaela, amiga de infância, escolheu algo mais simples. Optou por uma rápida passada no cartório, mas ainda assim, fez questão de usar vestido de noiva branco e um arranjo de flores naturais nos cabelos.
Maio, mês das noivas, corações apaixonados, vestidos, bem-casados. E como não podia deixar ser, um novo convite, dessa vez de Maria Valentina.
Antes, dúvidas e mais dúvidas, sem saber ao certo o que usar, pensando em impressionar escolheu um vestido, presente de Mauro, seu noivo. Mas com o frio que fazia na capital paulista, mudou de idéia, vestiu-se com algo feminino, porém discreto, exceto pelo decote.
Seguimos juntas acompanhadas de outras duas amigas. Contente, Maria Valentina desejava chegar na hora marcada. Em vão. Roberto parecia fazer questão do atraso. Era a minha primeira vez numa audiência de divórcio. Roberto ao nos encontrar sequer nos cumprimentou, fez cara de poucos amigos. Minha amiga queria acabar logo com isso, mas precisávamos aguardar.
Sentada num banco, no cantinho de uma pequena e escura sala, conversamos. Separados há quatro anos, Maria Valentina comentava sobre seu ex-marido, Roberto. Parecia inevitável não falar da aparência do rapaz, que, preferiu ficar em outra área, acompanhado também de sua testemunha.
No corredor um rosto conhecido: É Ana Paula; amiga que não via há anos, estudamos juntas, mas desde seu casamento não sabia de seu paradeiro. Ainda de longe pude vê-la entrar na sala do juiz. Vinte minutos depois Ana Paula estava de volta com o rosto vermelho e mergulhado em lágrimas, desceu as escadas sem ao menos olhar pra trás.
Valentina ainda esperava sua vez. Ao meu lado, reparei uma moça de cabelos loiros, vestida toda de preto, sorriso no canto da boca, se levantar. Era chegada a sua hora. Ao avistar seu ex, sinalizou, disse à advogada que esperassem ele entrar. Mais vintes minutos e parecia estar tudo acabado, trocaram um aperto de mão e tchau. Pouco antes ouvimos o comentário de alguém que esperava: - Para casar foi tudo tão rápido. Para separar vou ter que esperar horrores?
Finalmente é a vez de Maria Valentina. Ela e Beto entraram juntos na sala. Pelo vidro da porta pude ver Valentina falar e falar e falar. A situação parecia amigável. A juíza pediu que entrasse a primeira testemunha, mas não era eu. Pouco depois a moça saiu. Entrou então a segunda e novamente a primeira que, dessa vez, precisava assinar. Minutos depois todos estavam de volta. Para a nossa surpresa não foi necessário que eu testemunhasse.
Pensando evitar novos olhares, decidimos descer os dois andares pela escada. Foi a última vez que vi Roberto. Já Maria Valentina, amiga querida, está de casamento marcado com Mauro, planeja festejar sua nova união em agosto trajando um vestido de cor pérola, tecido crepe georgete e bordado em pedrarias. Sem titubear aceitei ser sua madrinha.
(TODA QUARTA-FEIRA UMA IDÉIA NOVA AQUI NO VARAL)
Escrito por Marcela Fonseca Mazza às 15h37
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