O TRIVIAL DO CORPO
Jorge sempre teve uma vida de cão. Aos quatro anos foi abandonado pela mãe e de seu pai nunca soube sequer o primeiro nome. Criado por uma vizinha, a quem considerava tia, cresceu num prédio fétido e entregue às ruinas na Avenida Nove de Julho. Dividia o quarto com outras seis crianças, era a menor delas, tinha direito à uma única refeição por dia e seu corpo franzino era alvo de piadas e pancadas. Aos treze anos deixou o farol onde vendia balas para seguir outro rumo. Uma oportunidade lhe foi dada na padaria da esquina da avenida onde morava, era ele quem entregava as dezenas de quentinhas vendidas no horário do almoço para funcionários de empresas da região. Três anos depois, uma nova chance, tornou-se office-boy de uma multinacional, locada na Praça da República. Tímido e extremamente reservado, mas competente e responsável, trabalhou duro para chegar à tão sonhada cadeira de diretor. Sério demais, Jorge não demonstrava sentimentos, não tinha amigos, exceto o companheiro Tonhão. Seu divertimento era um bar na badalada Rua Augusta. Lá era possível beber, observar pessoas e sair sem ser notado. Foi numa noite qualquer nesse mesmo bar que Jorge viu pela primeira vez Dandara, garota despachada, cheia de medos e manias. Dandara não entrava em elevadores por temer possíveis quedas. Tinha variações de humor, detestava maracujá e o cheiro da dupla café com leita lhe causava naúseas. Detestava peixe, certa vez viu sua avó engasgar com espinhos durante um almoço de Páscoa e não chupava balas Kids pelo mesmo motivo. Mas o que fazia a moça tremer eram os cães. Inúmeras vezes deu a volta no quarteirão onde morava, ou simplesmente mudou todo seu trajeto para não cruzar com um. Se apavorava diante do latido do animal independente do tamanho ou espécie. Mas a moça sempre assumiu suas esquisitices. Nunca se envergonhou disso ou daquilo. Dizia sempre, o medo é o trivial do corpo, depois de ler a frase num livro de Graciliano Ramos. Jorge se apaixonou pela garota. Se sentia feliz, completo com a moça por perto. Após o primeiro encontro outros vieram a seguir. Foi por e-mail que ele a pediu em casamento. A resposta não poderia ser diferente. Dandara preparou um romântico e apimentado jantar mexicano, regado de tequila e marguerita. Não deu outra, juras de amor, canções apaixonantes, luzes de velas e a idéia de dividirem o apartamento onde ela vivia sozinha. Na manhã do dia seguinte chegavam as primeiras coisas do rapaz. Dez para às duas da tarde. Dandara acorda, ainda sonolenta calça a pantufa, bocejando vai até a cozinha, vê a porta entreaberta, espia pela fresta, vê Tonhão na área de serviço. Desesperada chama o sindico que o leva para a portaria do prédio. Incorformado, Jorge se viu diante da escolha, Dandara ou Tonhão. Nunca havia confessado, mas, seu único medo era ser abandonado outra vez por uma alma feminina. Sabia das loucuras da moça, de sua personalidade nada estável, por isso, decidiu voltar pra casa com seu fiel amigo Tonhão, um pequeno cão Banseji, de pêlos negros e curtos, raça rara, originário da África, que embora não fosse mudo, sequer latia. Sentiu-se mais seguro assim.
*Colaboração Mariana Fonseca, 19 anos, produtora de eventos, minha irmã!
(TODA QUARTA-FEIRA UMA NOVA IDÉIA AQUI NO VARAL)
Escrito por Marcela Fonseca às 22h24
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