*A ENTREVISTA
Segunda-feira o telefone celular de Heloísa tocou. A editora responsável pela publicação de sua revista favorita, onde desde criança sonhou um dia trabalhar, lhe telefonou para marcar uma entrevista de emprego. Helô, jornalista desempregada há um ano e dez meses, se encheu de felicidade. A moça que sobrevivia entre um freela e outro, entre um calote e outro, havia reenviado mais de cem currículos dias antes.
Sem conseguir dormir a candidata escreveu em seu diário virtual até às 4h da madrugada quando deitou-se para dormir, ansiosa pela chegada da manhã seguinte. Levantou-se por volta das 9h, tomou uma ducha morna e demorada, vestiu-se com uma roupa leve, sentou-se à mesa e tomou o café preparado por sua avó materna, alimentou-se bem como de costume e telefonou para sua melhor amiga, queria ouvir dela um 'boa sorte'. Seu primeiro compromisso aconteceu às 10h da manhã daquele que seria um dia muito especial, acompanhou a vovó Mercedes no supermercado, chegou em casa, almoçou e calculou seus passos até o local da entrevista, tomou então outro banho, dessa vez vestiu-se como manda o figurino, faltando uma hora para o encontro saiu. O bate-papo com Bárbara, chefe de reportagem, estava agendado para às 14h.
O percurso não era longo e pelo horário não seria demorado. Em meia hora chegaria ao prédio da editora. No bolso o companheiro fiel, seu iPod, entre as favoristas uma regravação repetia, repetia e repetia, 'Dancing With Myself', na versão da banda francesa Nouvelle Vague. Enquanto ouvia o som de sua mais nova paixão musical viajava e observava rostos, gestos, jeitos, prestava atenção nas relações humanas e situações cotidianas das mais variadas dentro e fora do coletivo.
O encontro com Bárbara foi decisivo. Trataram de assuntos como sociedade, moda, música, cultura, experiências e aspirações profissionais. Se entenderam num piscar de olhos. Sorte de Helô, que conquistou a vaga. Ao sair da sala de sua chefe, por um minuto e só por um minuto Heloísa viu Daniel, a quem teve a chance de ser apresentada, na verdade já o conhecia de um encontro súbito, haviam também trocado e-mails recentemente, mas ele sequer imaginava que a moça com quem um dia havia conversado de maneira desinteressada estava diante de seus olhos.
Contente com a novidade Heloísa saiu da empresa à espera do dia seguinte. A volta para casa parecia não ter fim. Por volta das 18h a cidade estava o caos, furiosa com seus moradores, o mesmo trajeto demorou três vezes mais. Heloísa só pensava em trabalhar e, é claro, em Daniel.
*Continua quarta-feira da semana que vem...
(TODA QUARTA-FEIRA UMA NOVA IDÉIA AQUI NO VARAL)
Escrito por Marcela Fonseca às 21h18
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